Final de tarde e início da
noite, por volta das 19h. Nessa época do ano — pleno mês de julho —, o sol já
havia sumido por completo e a lua se fazia presente em um céu estrelado. Uma
pena que tão poucas pessoas reparem nisso.
Eu retornava para casa a bordo
da minha supermáquina, voando a incríveis 5 km/h. Não via a hora de chegar para
que me tirassem daquela cadeira de rodas — ou, se preferirem, cadeia de rodas.
Vinha nessa ultravelocidade,
perdido em pensamentos, quando de repente ouvi um estrondo ensurdecedor. Olhei
para o lado e vi que um carro havia colidido violentamente contra uma árvore.
Era um trecho ermo da rua; não havia casas por perto, e a mais próxima ficava a
pelo menos uns 900 metros dali.
Tentei acionar o celular de
imediato, mas a bateria tinha acabado. Na minha condição de tetraplégico, eu
não conseguiria pegar o cabo sozinho para recarregá-lo. Resolvi, então,
manobrar até o local da batida, que ficava a poucos metros de onde eu estava.
Ao me aproximar, vi o horror: o
carro havia sido partido ao meio. O lado do passageiro despencou barranco
abaixo, enquanto o lado do motorista jazia tombado sobre a calçada. O condutor
estava preso às ferragens e balbuciava palavras desconexas. Aproximei-me mais
um pouco e levei um choque: ele havia perdido as duas pernas na colisão —
tinham sido arrancadas junto com a frente do veículo. Em seguida, outro susto
ainda maior me paralisou ao reconhecer o rosto dele. Tratava-se de uma figura
influente da cidade, justamente o meu algoz em uma decisão judicial arbitrária
contra mim.
Ali estava eu: sem bateria no
celular, a uma distância considerável de qualquer socorro e frente a frente com
o homem que me prejudicara.
Pensei no que fazer. Cheguei a
gritar por ajuda, mas foi em vão. Teria de buscar socorro por conta própria.
Nesse instante, o homem agonizou:
— Me ajude... Não me deixe
morrer aqui, Pi!
Não restavam dúvidas: ele havia
me reconhecido. Respondi que iria buscar ajuda e pedi que não desistisse. Segui
em direção ao Botequim do Bim, que ficava no meu caminho de volta para casa. Eu
levaria no máximo uns dez minutos até lá e certamente encontraria pessoas para
ajudar.
Durante o trajeto, os minutos
pareceram uma eternidade. Uma enxurrada de pensamentos tomou conta de mim,
alternando entre a compaixão e a revolta. Eu sabia que a vida daquele homem
dependia unicamente de mim — ou melhor, dos dois dedos da minha mão direita, os
únicos que consigo movimentar para empurrar o joystick da cadeira. Comecei a me
lembrar de cada detalhe daquele parecer dele, negando o home care custeado pelo Estado a que eu tinha direito.
A justificativa absurda: como ele me vira na rua vendendo meus livros, concluiu
que, se eu conseguia sair para "trabalhar", também conseguiria me
virar sozinho dentro de casa. O sangue ferveu só de lembrar. Ele nem sequer
determinou uma perícia médica ou enviou uma assistente social para averiguar
minha rotina.
Pensei com rancor: "Que se dane! Ele que saia sozinho de lá agora; quero ver
conseguir sem as pernas. Vou para casa, onde minha mãe, já idosa e exausta, me
espera para me tirar da cadeira, me dar banho, me trocar, me alimentar e me pôr
na cama. É assim que eu 'me viro sozinho'."
Pensava em voz alta, a raiva
crescendo a cada metro. Como aquele infeliz não pensou na minha mãe? No
sofrimento e na sobrecarga dela?
Ao me aproximar do Botequim do
Bim, vi que o salão estava cheio. Parei por alguns segundos. Girei a cadeira de
volta para o caminho de onde vim: a rua escura, deserta... Era a chance
perfeita para a vingança. Bastava eu não fazer absolutamente nada. A raiva já
dominava meu peito. Virei novamente para ir direto para casa, ignorando o bar.
Mas como eu explicaria isso à minha mãe? Ela jamais me perdoaria. Como eu
conviveria com o peso daquela omissão sobre a minha consciência? E se aquele
sujeito fosse pai, marido, filho? Como ficaria a família dele?
Todo esse conflito interno durou
menos de trinta segundos. A decisão estava tomada:
— Bim! Bim... Socorro! — gritei
com toda a força dos meus pulmões.
Rapidamente todos saíram para
ver o que era. Contei sobre a tragédia e, ali mesmo da calçada do bar, vi o
resgate chegar com as sirenes abertas e, minutos depois, partir levando o homem
da lei.
Naquela noite, depois de muito
tempo, consegui ter um sono profundo. Parecia que eu havia me libertado de um
peso sufocante que carregava inutilmente no peito.
Dias depois, soube que ele havia
sobrevivido. Estava bem na medida do possível, apesar de ter perdido as duas
pernas. A família — pais, esposa e filhas — estava imensamente aliviada por
tê-lo vivo em casa.
O tempo passou e aquele mesmo
homem retornou às suas atividades no Fórum da comarca, agora acompanhado por
uma "cadeia sobre rodas". Para minha surpresa, recebi um chamado para
comparecer ao gabinete dele.
Chegando lá, fui acolhido não
apenas por ele, mas também pela sua esposa e pelas filhas. Ele veio até mim com
os olhos marejados, agradeceu por eu ter salvado sua vida e pediu perdão pela
crueldade do passado. Disse que hoje compreende na própria carne as limitações
diárias que eu e minha mãe enfrentamos. Revelou também que havia determinado a
reabertura do processo e que, em breve, a assistência de home care seria finalmente liberada.
Com o coração aberto, confessei
a ele tudo o que se passou pela minha cabeça naqueles dez minutos a caminho do
bar. Disse-lhe que, na verdade, não havia sido ele o maior salvo daquela noite,
mas sim a minha própria humanidade.
Choramos juntos e nos abraçamos.
As filhas dele, de 5 e 3 anos, subiram nos braços da minha cadeira e me
encheram de beijos e abraços, acompanhadas pela mãe.
Dali em diante, construímos uma
verdadeira amizade. E foi assim que me tornei o super-herói de Santa Rita do
Passa Quatro.
Por: SILVIO K. JR